Maternidade e paternidade consciente entre os jovens: A espera de uma política pública exemplar

Aline de Andrade

Educadora Perinatal Popular e Licenciada em Ciências Sociais pela UFPE.

Foto: Aline de Andrade

Imagine um novo país, onde jovens estão trabalhando, estudando e preparando-se para uma nova etapa do seu desenvolvimento humano. Impossível? Pois saibam que viverão num país deste nos próximos anos se forem dadas à devida atenção política ao período que cerca o nascimento.  

 

A questão da saúde sexual e reprodutiva da juventude tornou-se um dos principais debates políticos nos últimos anos. Um dos principais fatores deve-se ao cenário alarmante de altos índices de gravidez na adolescência, que tem trazido graves conseqüências para os jovens que vão desde aos altos riscos durante o ciclo gravídico-puerperal até a falta de maturidade psicológica para exercer a maternagem/paternagem com seus filhos. 

 

Só para se ter uma idéia desta realidade, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização do Trabalho (OT), no Brasil, somente entre 2001 e 2003, nasceram cerca de 85 mil bebês de mães com idade entre 10 e 14 anos. Outros dois milhões foram gerados por garotas entre 15 e 19 anos. Os dados complicam quando são meninas de baixa renda e escolaridade, subindo para nove vezes maior do que entre as mais instruídas e com melhor renda. Em Pernambuco, segundo o Ministério da Saúde, em 2003 e 2004 nasceram mais de 1.500 bebês, filhos de meninas com idade entre 9 e 15 anos.

 

Este quadro tem apontado para a urgência de se desenvolver ações e programas que possam responder de maneira efetiva as necessidades levantadas por este contingente geracional.  O Fenômeno é complexo e exige uma intervenção estratégica ampla. Ela deveria centrar-se desde a implementação de políticas que regulem e fiscalizem a publicidade e propaganda voltada para o mercado infantil (ações já existente em diversos países, como Suécia, Inglaterra e EUA), que podemos responsabilizar como um dos principais veículos de promoção da “adultização” da criança e a conseqüente iniciação sexual precoce[1]; até o desenvolvimento de ações educativas que permita ao jovem conhecer e estudar sobre todo o processo reprodutivo, onde compreendam o significado e a responsabilidade de se conceber, gestar, parir, amamentar e cuidar/educar um novo ser humano.

 

O governo ao invés de centrar suas ações na difusão da utilização de métodos contraceptivos, que embora sejam fundamentais num contexto em que há um significativo aumento da infecção pelo HIV/AIDS entre os jovens[2], precisam reconhecer que estas ações não bastam para prevenir a concepção indesejada, e em muitos casos tem tido efeitos contrários, provocando um aumento nos índices de gravidez precoce onde desenvolvem estas ações.  

 

Os jovens na realidade, precisam estar conscientes das transformações que uma concepção irá trazer para sua vida como um todo, assim como suas conseqüências para a sociedade. E para isso precisam ter acesso a informações baseadas em evidência que os ensinem as implicações a que estão sujeitos a curto, médio e longo prazo ao optarem por tornarem-se pais sem as condições necessárias para exercê-la responsavelmente em todos os níveis, seja físico, psicológico, econômico, cultural e social.

 

Hoje já se acumula uma vasta literatura internacional e nacional[3] sobre o período pré-natal e perinatal, que abordam as conseqüências sociais advindas da desatenção e falta de políticas dos governos sobre a prevenção de gravidez precoce, apoio ao parto humanizado, licença maternidade digna que garanta a amamentação exclusiva, e de políticas de cuidado com os bebês fora de creches. Os custos sociais são infinitamente menores quando se investe nestas questões pelo impacto que trazem ao diminuir os índices de mortalidade infantil e de morbidade em todas as faixas etárias; de criminalidade e custos relativos com processos judiciais e encarceramento, uso de droga como fonte de adicção, entre outros. A Suécia tem aparecido como um modelo na implementação destas políticas.   

 

Se pensarmos que os jovens representam o maior contingente envolvido nos dados sobre violência, criminalidade, consumo e tráfico de drogas, as ações de educação sexual e reprodutiva apareceriam como ações prioritárias para a prevenção efetiva da reprodução desta ordem social. É desta forma que o governo brasileiro precisa começar a pensar e cuidar da saúde sexual e reprodutiva da juventude, pois só com a implementação de ações educativas que orientem os jovens para a maternidade e paternidade consciente que teremos uma política pública de saúde exemplar no Brasil.

 

 


 

 

[1] Ver documentário Criança a alma do negócio de Estela Renner Disponível em:  http://www.youtube.com/watch?v=dX-ND0G8PRU

 

[2] Segundo dados da UNFPA.

 

[3] Para saber sobre educação para a maternidade e paternidade consciente acesse o site www.cienciadoiniciodavida.org.br

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