Cegueira Política

Rivaldo Júnior da Silva

Estudante do curso de Medicina, UFCG.

Foto: everystockphoto.com

Nas últimas décadas, com o fim da ditadura militar, nosso país adormece sobre um clima de nação soberana e democrática. O êxito das manifestações para as diretas nos arremata uma ideia de donos do poder. O eleitor, mais do que em qualquer época da história política do Brasil, é o verdadeiro responsável pela máquina administrativa. Seria. Já que exemplos de conturbações políticas à sombra da corrupção atormentam a ética de nosso voto, muitas vezes, lamentosamente, apoiados pelos protagonistas do circo político, os eleitores.

 

O sistema de reeleição, criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, é possivelmente um dos piores traumas do sistema político atual. São os quatro primeiros anos alimentando a população de modo corrupto e insustentável, gerando uma verdadeira escravidão pública à custa do maquinário financeiro do município. A forma de poder criada pelos romanos cai como uma luva nessa situação. Pão e circo. E de modo cego milhares de eleitores, devedores fiéis de um político de direita são manipulados a repetir o voto no próximo pleito, caso o contrário, perdem os supostos “benefícios”, quais estes, deveres do executivo para seus cidadãos. Mas não. Não são estes as obrigações dos prefeitos e vereadores para seus correligionários. Não é um emprego em cargo comissionado para suas marionetes políticas que vai fazer com que o sistema social se desenvolva. Mas a visão de todo o conjunto social em busca da autossustentação aliando as forças políticas em favor do crescimento de toda comunidade.

 

É triste e real o depoimento de uma senhora a um vereador de esquerda que trazia em seu discurso pelo voto a pavimentação de uma das principais ruas da região; que “não foram suas pedras que alimentaram minha família nos últimos quatro anos”. E assim, vai sendo usurpado o ponto de vista crítico da população, que se vende a favores e obrigações como se bastasse apenas seu pão na mesa e sua cabeça sob um teto. Não! Não podemos ficar parados em meio à cegueira política. O “rouba, mas faz” não pode ser uma esperança em meio à tantos políticos corruptos como se o simples gesto de fazer algo ou ceder um privilégio o livrasse de todas as culpas de uma má administração do dinheiro do povo. E com o cabresto do neocoronelismo, quatro anos depois de por o “bom” prefeito no poder, o eleitor confirma a reeleição, garantindo ao seu município que nos próximos quatros anos o “senhor prefeito” vai sugá-lo até a última promessa vã, para quem sabe, depois de oito anos voltar à casa do humilde eleitor, prometendo mais dois mandatos de muitos benefícios.

 

Nossos olhos são uma forte forma de fiscalizar os erros ao nosso redor, a mancha que teima em sujar o público. Porém, nossa voz é o instrumento mais sagrado da democracia plena e viva e é através dela que podemos, sim, nós podemos; realizar um verdadeiro e limpo jogo político no contexto em que vivemos. É preciso força, união e coragem em gritar mais alto que os disparos silenciosos que calam vozes mártires, pois esperar não é saber, quem sabe faz a hora e não espera acontecer.

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