Impossível a convivência sadia entre pessoas de religiões diferentes?

Éllcio Ricardo

Psicólogo, Diretor de Projetos do IPJ.

Foto: Paulo Henrique Alves Lima

Certa vez uma pessoa me disse: pessoas que professam a fé de religiões diferentes não poderiam ficar juntas, pois não daria certo e isto estava escrito na bíblia. Pensando nisso resolvi escrever estas simples palavras na tentativa de vivificar o que penso a respeito.

 

“Tudo seria tão mais simples, tão mais fácil”. Disse ela. Eu respondi da seguinte forma:

 

E se isso não tivesse sido escrito, se ninguém escrevesse que pessoas de diferentes religiões não podem ficar juntas, como se a medida do amor fosse feita pela densidade das páginas escritas em papel fugidio? Tudo seria tão mais simples se entidades preconceituosas não ousassem manipular mentes frágeis incutindo mesquinhezes infrutíferas e tóxicas que agonizam e destroem a afetividade em desenvolvimento. Religião é rótulo pouco criativo no mundo das informações verossímeis acerca da experiência de amar por inteiro, de sentir por pedaços e de abraçar por completo. Hoje, precisamos mais do que religiões, estamos cansados de ouvir a mesma conversa repetitiva de pecados imperdoáveis e de arrependimentos obrigatórios. Caso você pense em escrever algumas palavras, por simples que sejam, saiba que alguém pode tomá-las como verdade e enveredar por caminhos mentirosos e trôpegos. Que esta pessoa acreditará tanto no que você escreveu que a dúvida estará para sempre sepultada nas catacumbas da zona de conforto. Esta pessoa será tão feliz, por encontrar uma verdade absoluta, que nunca sentirá o prazer de estar desacobertado, só, ou mesmo muito angustiado por não saber o que fazer. Quando acreditamos tanto na palavra, que mata, temos o desprazer de nos encontrarmos com o que vivifica. Mas pouco importa se escrevemos ou não, escrever é apenas fragmentar uma idéia maior, é apenas codificar o ininteligível e submergir da profundidade densa do oceano obscuro na tentativa de procurar um decigrama de oxigênio para continuar na ilusão. Ir ao espírito é tão perigoso quanto escrever a palavra que mata, porque só aparecerá o espírito que queremos ver. A cor branca, iluminada, é o sonho de todo vidente mergulhado no doce sabor da pureza, esquecido que o amargor da alteridade é o que nos faz ser o próximo do nosso próximo. Estar com o semelhante é por demais seguro e confortável. O desafio de viver está na diferença do parecer, na similitude do avesso e na contradição das aparências. O amor reclama o desamor, a dor solicita o remédio, o ódio à compaixão. A religião também deveria se basear na experiência humana dos desiguais para não morrer de mesmice na semelhança vil.

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